Como é sobreviver entre as cavernas e a indústria

Comer menos e melhor, mexer mais o corpo e perder menos tempo com informações tão interessantes quanto inúteis da internet. Esses são desejos relativamente comuns para a espécie humana, certo? Não para um ancestral que viveu há 2,5 milhões de anos, ou alguém de 200 mil anos atrás, já da nossa espécie homo sapiens, nem de outras pessoas ao longo da história até os últimos 200 ou 100 anos. E não fazia sentido não só pela parte óbvia da internet, mas essencialmente pelos dois primeiros motivos: ninguém precisava dispensar comida e nem podia se dar ao luxo de ficar um dia todo sentado.

Até uns 10 mil anos, a vida dos humanos era basicamente procurar comida e abrigo e tentar não morrer – as possibilidades disso acontecer naquela época eram muitas. As pessoas viveram nessa função por milhões de anos, o que fez com que nossa espécie se desenvolvesse com essas finalidades. Nosso corpo e cérebro foram moldados para isso. Há 10 mil anos o homem começou a domesticar plantas e animais e a deixar de ser nômade, mas comida e sobrevivência continuavam preenchendo os dias com muito trabalho. Só que a partir de então a evolução foi rápida, o que tornou possível hoje se ganhar a vida sentado oito horas por dia, tendo acesso a comidas super energéticas sem o mínimo esforço. É de se imaginar que nossa espécie não fosse se adaptar tão rapidamente.

Com esse relato simples vocês puderam ver que não sou historiadora, mas penso que saber disso é importante. Não acredito que o melhor para a humanidade seja voltar às cavernas, mas saber de onde viemos nos situa no emaranhado de informações que nos cerca hoje. O avanço da ciência, da indústria e tudo mais trouxe possibilidades incríveis, e por outro lado consequências nem sempre claras.

Muito conhecimento, pouca informação

Um exemplo é o tanto que falar de alimentação está na moda: alimentos revolucionários ou prejudiciais, suplementos e dietas são notícias todos os dias. Não sou capaz de descrever os fatores que tornaram tão problematizado o ato de comer, mas vou citar alguns: indústria alimentícia, sensacionalismo, ciência questionável, falta de ética. Resultado? Hoje se acredita que lanche saudável e gostoso tem que ter tal biscoito, que não tem problema jantar sempre algo baseado em farinhas refinadas acompanhados de refrigerantes zero, ou ainda que criança precisa comer açúcar para ter energia. Percebe que olhando para o passado isso não faz sentido?

A questão não é nem se é certo ou errado, mas o fato de que nosso organismo não foi moldado para isso, logo as chances de dar problema são grandes.

Acredito que os industrializados, assim como outros alimentos modificados, eventualmente podem fazer parte de uma alimentação saudável, desde que bem escolhidos, e como complemento, não como base. Muitos são práticos e saborosos, mas no fundo a gente sabe que morango é melhor que cookie sabor morango enriquecido com vitaminas.

É contraditório que hoje exista tanto conhecimento disponível e ao mesmo tempo tanta falta de informação. A mensagem que quero deixar é que, na dúvida, a gente pense se tal coisa faria sentido se vivêssemos sem tantas conveniências urbanas.  Ao longo dos últimos milhares de anos, as regras para sobreviver foram basicamente os sinais do nosso corpo. Será que as respostas que tanto buscamos não estão dentro de nós, esperando para serem ouvidas?

Sobre o Autor

Carla Vailatti

Carla Vailatti

Oi, eu sou a Carla Vailatti, jornalista e intolerante à lactose. Vivo em negociação com meu corpo, porque tento ouvi-lo, mas ele pede muito chocolate. Acredito que todos precisamos buscar informações para sermos protagonistas da própria saúde.

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