Por que estamos tão intolerantes aos alimentos

Texto da nutricionista Pri Riciardi  CRN 89694- nutripri_riciardi

 

Já se perguntou por que estamos tão intolerantes aos alimentos?

Talvez você tenha alguma intolerância ou alergia alimentar e já se dê super bem com isso, mas já parou para pensar porque as sensibilidades alimentares estão cada vez mais comuns?

Eu me fiz essa pergunta e comecei a me aprofundar no assunto não só por ser nutricionista, mas por minha experiência pessoal.

Ao longo dos anos fui descobrindo que os mais diferentes sintomas que eu sentia pareciam estar relacionados à sensibilidades alimentares. Nessa busca por aquilo que me fazia mal, retirei vários alimentos da dieta (glúten, laticínios, ovo, milho, soja, cítricos, castanhas, peixes, frango, carne, frutas…), estudei, pesquisei, fiz exames… e só com o tempo entendi que elas poderiam realmente existir (afinal, também tivemos evolução nos diagnósticos), mas eram só a ponta do iceberg.

O grande x da questão está no que chamamos de hiper permeabilidade intestinal (leaky gut). O intestino é nosso grande “filtro” do que podemos ou não absorver do mundo. Quando este filtro está “furado”, absorvemos mais do que deveríamos e isto nos causa reações manifestadas de diferentes formas. Entender o que afeta no aumento dessa permeabilidade é o caminho para entender porque estamos mais intolerantes. Vamos ver alguns fatores:

Digestão

Um alimento que chega no intestino mal digerido é fermentado por bactérias ruins (putrefado) e gera disbiose (desequilíbrio dessas bactérias) e compostos tóxicos que afetam nossa proteção intestinal.

Digerir bem vai além de não ter azia ou má digestão, é o processo de transformar da melhor forma o que comemos, e por isso é impactado por tantos fatores: mastigação, quantidade de ácido clorídrico (reduzido pelos antiácidos tão comuns atualmente), quantidades do alimento e da refeição, líquidos em excesso, deficiências nutricionais, estado emocional, comer uma refeição antes de ter digerido completamente a outra e combinações entre os alimento.

Misturas inadequadas

Não é raro hoje em dia juntarmos em um mesmo prato alimentos de diferentes regiões e  estações, mais de um tipo de carne, comida com frutas ou suco…. Os alimentos escolhidos podem ser muito saudáveis, mas toda essa mistura talvez não seja.

Na nutrição ocidental se fala (e se sabe) muito pouco sobre a mistura e combinação dos alimentos. Falamos de otimizar a absorção de alguns nutrientes combinando alimentos (como o ferro e vitamina C ou a cúrcuma com a pimenta preta), mas pouco se fala da combinação de grupos alimentares em uma mesma refeição.

Passei a observar e me interessar por este fato estudando medicinas tradicionais (chinesa e Ayurvédica), observando culturas (como no judaísmo) e lendo protocolos de médicos, digamos, mais alternativos, quando tudo me pareceu fazer muito sentido.

Na Ayurveda, por exemplo, se fala de alimentos incompatíveis (o que não misturar) e seus antídotos (o que misturar para otimizar a digestão); no judaísmo não se misturam alguns alimentos, como laticínios e carnes.

Em relação ao embasamento científico, há poucos, mas alguns estudos que mostram a mudança na alergicidade (potencial de causar alergia) de um alimento conforme seu modo de preparo e o alimento que acompanha. Por exemplo, um ovo mexido seria menos alergênico do que um ovo cozido e um ovo acompanhado de tomate seria mais alergênico.

Modificação dos alimentos

Se você já leu os livros mais famosos sobre o assunto de alimentos que fazem mal, como Barriga de trigo, já deve estar familiarizado com essa questão. Mas quero trazer aqui outros pontos para pensarmos.

A modificação dos alimentos, desde sua manipulação genética (transgênicos) ao seu modo de processamento, são grandes influenciadores da epidemia da intolerância, ao meu ponto de vista e de alguns autores, assim como de tantos outros males.

Essas modificações alteram a composição nutricional natural do alimento, podendo ser uma sobrecarga para sua digestão no organismo. É o caso do trigo, por exemplo. Estima-se que houve um aumento de 70% do percentual de seu teor de glúten no grão por “melhoramentos” genéticos.

Um outro fator super importante, que deixamos para trás (e que aos poucos tem sido retomado!) é a fermentação natural e prolongada dos alimentos. Proteínas, de forma geral, são nutrientes de difícil digestão, mas que ao longo da história alimentar estiveram associados à um processo de fermentação. Basta pensar no pão e nos laticínios. Os pães de fermentação natural levam horas (mínimo de 15h) para ficarem prontos, o que favorece a degradação do glúten. Por outro lado, pães industrializados podem ficar prontos dentro de 4 horas.

A mesma coisa para os laticínios. Quando o leite não é pasteurizado, ele possui bactérias naturalmente presentes nele que o fermentam e facilitam sua digestibilidade. Mas quando desintegramos os alimentos de sua forma natural, seja retirando os microorganismos benéficos que nele vivem ou reduzindo seu percentual de gordura, também alteramos a forma como ele é digerido e absorvido por nosso corpo.

O exemplo mais prático disso é o leite desnatado. Há  uma  teoria da qual acredito, defendida por um dos professores de nutrição de Harvard mais conhecidos – Walter Willet. Ele defende que ao se retirar a gordura do leite aceleramos sua passagem pelo intestino, e com isso, reduzimos o tempo de digestão da lactose.

Emoções e ambiente

Costumo dizer que uma refeição no Mc Donalds é tão ruim quanto emoções negativas, estresse ou auto cobrança, com a “vantagem” de que a refeição você come uma vez no dia e as emoções ficam ligadas por 24h.

O impacto das emoções é algo difícil de medir, pois não dá pra contar, não tem quantidade nem rótulo de embalagem. Eu como nutricionista, reconhecia as emoções, mas confesso que achava que a nutrição estava acima de tudo, mas com o tempo vi que não é bem assim, e os impactos são igualmente fortes.

As emoções interferem desde a forma como você processa um alimento, afetam diretamente na permeabilidade intestinal e também podem afetar como seu corpo reage a cada alimento conforme o que você leu ou ouviu sobre ele (sim, estou falando de efeito placebo!).

Junto das emoções, não podemos deixar de negligenciar as questões ambientais que afetam nossa saúde e diretamente a permeabilidade de nosso intestino. Desde conservantes e corantes em alimentos, à poluição do ar, aos aditivos da água (fluor, cloro), agrotóxico, passando pelo uso de antibióticos e anticoncepcionais….Você pode fazer o seu máximo, escolher alimentos orgânicos, não tomar medicamentos, consumir produtos sem conservantes…mas ainda assim você não estará totalmente ileso.

É nesse ponto que repito uma frase que escutei de uma professora minha “A saúde verdadeira só é possível quando ela existe em sociedade”. Ou seja, vivemos no mesmo mundo, portanto colhemos o fruto do que nós, e os outros, fazemos. Cada vez que jogamos uma embalagem fora, cada vez que consumimos um alimento que vem de longe, cada vez que andamos de carro, estamos contribuindo para esse impacto em menor ou maior grau.

Desrespeito ao corpo

O desrespeito ao corpo neste caso não é a falta de cuidado com ele, mas a falta de lhe dar ouvidos e de  percebê-lo. Esse desrespeito é resultado do que chamo de dois extremos nutricionais: por um lado, o consumo de alimentos industrializados e viciantes que nos desconectam de nossas naturais vontades e necessidades; do outro, regras e o reducionismo nutricional que prega o consumo de coisas genéricas para todos ou defende alimentos bons e ruins. O apelo reducionista muitas vezes leva também ao exagero do saudável.

Quer alguns exemplos? Comer fibras (frutas, psillium, saladas cruas) em excesso pode ser mais intolerável para algumas pessoas que para outras e pode favorecer sintomas de intestino irritável, por exemplo. Outro exemplo comum é o excesso de proteína em uma única refeição, absorvemos cerca de 20g por vez, o que está além disso é o que apodrece (putrefação, como mencionei no início); tomar coisas frias e sucos verdes no inverno quando seu corpo pede por algo quente e acolhedor.

Não temos uma alimentação saudável padrão, as demandas de pessoa para pessoa mudam, assim como as nossas próprias demandas mudam de estação para estação ou dependendo da situação em que passamos naquele momento de vida.

O respeito ao corpo pode ser um processo não tão óbvio, por que demanda uma fase anterior que é a reconexão e sua auto percepção. Sei que não é fácil, principalmente quando se escuta tantos “podes” e “não podes” por aí. Ele exige paciência e sentimentos abertos, mas acredito que no fundo, uma vez livres dos vícios alimentares e também de suas regras, somos capazes de escutar e entender de que alimentos, nutrientes e energias nosso corpo precisa em cada momento que passamos.

Pri Riciardi – CRN 89694

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As informações dadas tem o objetivo de compartilhar conhecimento e conscientizar e não substituem a consulta e acompanhamento profissional 

Sobre o Autor

Priscila Riciardi

Priscila Riciardi

Sou nutricionista por paixão! Acredito que a alimentação saudável é um caminho de auto conhecimento e não um monte de regras nutricionais. Para cada pessoa e momento de vida há um alimento e um estilo alimentar. Sempre que posso, adoro criar na cozinha e transformar conhecimento em sabor.

5 comentários em “Por que estamos tão intolerantes aos alimentos

  • 14 de novembro de 2016 at 9:12
    Olavo Wagner

    Eu igualmente possuo uma experiência pessoal nesta área e o aprofundamento me levou a mais conhecimento, como os níveis de histamina gerados pelo corpo e os estimulados pelos alimentos, além dos níveis de diaminoxidase. Outra parte muito importante são os sucos pancreáticos que com a idade podem estar sendo deixados de serem produzidos, acarretando em alimentos não digeridos, etc…..

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    • 17 de novembro de 2016 at 8:40

      Olá Olavo, obrigada pela colaboração, com certeza esses pontos são importantes. Vejo a alteração da histamina mais como consequência do que causa. A liberação do suco pancreático também pode acontecer por deficiência nutricional e alterações metabólicas, mas idade certamente impacta em todo processo digestivo, como você mencionou. Abraço

  • 13 de novembro de 2016 at 9:37
    neusa oliveira

    Só, sei de uma coisa esse negócio,de restrição alimentar, acontece muito nos dias de hoje,nos tempos passado comíamos de um tudo, ninguém passava mal. Era fruta direto do pé,carne de porco,comidas elaboradas,e nada acontecia com ninguém, acho que é uma questão de geração.

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  • 12 de novembro de 2016 at 14:47
    sarah

    Muito bom!!!

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  • 12 de novembro de 2016 at 13:46
    Flavia scussel

    Adorei o texto! Parabéns! Faz muito sentido pra mim buscar essa reconexão com o corpo para escutar o que nos faz bem ou nao e o que precisamos em cada momento da nossa vida!

    Reply

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