O impacto psicológico das alergias alimentares

Você reconhece o impacto psicológico das alergias alimentares?

Tem muita gente falando sobre alergias e intolerâncias alimentares, mas quase ninguém olhando de fato para elas.

Conheci a Flávia através do Instagram, a marquei em um post que escrevi sobre as implicações psicossociais da alergia alimentar, e desde então viemos trocando figurinhas sobre a importância de olhar para esse quadro para além dos nutrientes.

A comoção que gerou quando ela abriu o espaço no Instagram para os seguidores contarem como as alergias e intolerâncias impactaram o social e o humor na vida deles só mostrou para nós que esse é um assunto que precisa ser amplamente discutido.

O que acontece quando não consideramos o impacto psicológico?

Quando o impacto psicológico das restrições alimentares não é levado em consideração, deixamos de lado algo muito importante: oferecer um lugar de escuta e de empatia para aquele sujeito.

Muitos relatos do Instagram da Flávia traziam histórias de pessoas que não conseguiam falar sobre suas angústias em relação à exclusão do alimento, porque não tinham esse espaço. É necessário falar sobre isso. E vamos falar sobre isso!

Um mundo novo se apresenta quando o diagnóstico da alergia ou intolerância é feito: ao passo em que existe a promessa da diminuição do intenso desconforto físico, isso só é alcançado através da adesão a orientações médicas, orientações nutricionais, exames (muitas vezes aversivos), receitas novas e, principalmente, exclusão alimentar.

É uma avalanche de informação, mas também uma avalanche de sentimentos.

Nossa relação com a comida

A relação que traçamos com a comida começa no momento que nascemos e vai se construindo e se modificando ao longo da vida. Essa construção é contínua e composta desde gostos pessoais até por memórias afetivas.

Portanto, para falar sobre o impacto da exclusão alimentar, temos que olhar para além dos ingredientes, e levar em consideração tudo o que a alimentação engloba.

Temos que falar, então, do bolo da casa da avó que era feito toda vez que sua neta ia visitar, do hambúrguer com a amiga naquele dia em que nenhuma das duas estava legal, do milkshake de canudinho que foi dividido com o primeiro namorado.

Temos que falar da cozinha da mãe, do pai, da tia, do lar, da história de cada um.

E se tantas memórias e emoções estão envolvidas na alimentação, como podemos falar de exclusão e restrição alimentar e ignorar todas as perdas que isso traz?

Nas intolerâncias e alergias alimentares, não é excluído apenas um grupo alimentar, mas também todas as sensações, emoções, memórias e prazeres que aquele grupo alimentar já proporcionou.

E entendendo que a relação traçada com a alimentação é também uma relação que envolve afeto, é necessário apontar que sim, existe angústia nessa exclusão.

O problema é que em meio à avalanche de informações, às vezes não sobra espaço para entrar em contato ou até reconhecer essa angústia.

O que fazer com esses sentimentos, então?

1) Entenda que é NORMAL estar se sentindo mal/esquisito/angustiado/chateado/triste com o diagnóstico de intolerância ou alergia alimentar. Isso NÃO é frescura ou exagero. A relação com a alimentação é muito complexa para passar por essa exclusão e não sentir nada, isso faz parte.

2) Fale sobre isso. Fale sobre sua angústia, mas fale também sobre sua história. Excluir um grupo de alimentos da sua alimentação acaba te forçando a olhar para dentro e entender como foi sendo construída a sua história com a comida:

Será que aquele alimento representava um momento de afeto para você?

Como se deu essa construção?

Essa é a hora de buscar compreender os significados da comida na sua vida, para só assim, dar um novo significado (ressignificar) essa relação de acordo com sua nova realidade e de uma maneira que faça sentido para você.

A ressignificação abre espaço para que você acrescente, por exemplo, as receitas e ingredientes novos na sua relação com a alimentação, e, mais ainda, para que você também crie memórias afetivas com esses alimentos.

Se você sente que está difícil para lidar com o impacto que o diagnóstico trouxe para você, não hesite em procurar um profissional.

É completamente normal sentir-se mal com essa nova realidade, e o espaço de terapia, por exemplo, proporciona a possibilidade de pensar sobre os significados da comida na sua vida e facilita o processo de transformar a sua relação com a alimentação.

Não tem problema se não estiver sendo fácil essa transição para você, respeite o seu tempo e as suas possibilidades, e lembre-se que não há nada de errado em procurar ajuda.

Quer dividir algo com a gente? Aproveite esse espaço!

Com carinho,

Raquel.

Sobre o Autor

Raquel Guimarães

Raquel Guimarães

Raquel Guimarães é psicóloga clínica em São Paulo, especializanda em Comportamento Alimentar, autora e idealizadora da página Meu Querido Corpo (Instagram: @mqueridocorpo) e colunista no blog Lactose Não.

7 comentários em “O impacto psicológico das alergias alimentares

  • 11 de abril de 2019 at 8:11
    Patricia Margarete de Paula Oliveira

    Ola bom dia!
    Fazem pouco mais de um ano que confirmei a alergia alimentar da minha filha. O pediatra já nos orientava desde bebezinha devido os sintomas que ela apresentava, foram muitos momentos de dor, angustia e sofrimento . Desde um mês de idade Heloise já se alimentava com papinhas ensinadas pelo próprio Doutor somente com três tipos de vegetais. Tudo isso para evitar se alimentar do leite uma vez que ele tinha quase certeza que ela era alérgica. Foram anos com vários episódios de pneumonia, muitos tipos de tratamentos e nenhum dava resultado. Depois de anos de observacao conseguimos fazer o exame do IGGI e o diagnóstico Heloise tem hiperssenssibilidade alimentar à vários tipos de alimentos o médico ficou absmado! Mas apesar de anos de sofrimento, correria agradeço à Deus por ter me encaminhado a esse pediatra que cuida da minha filha desde o parto. O exame foi feito em fevereiro de 2018, começamos mais uma grande luta e desafios. Ainda não esta fácil para todos nós, minha filha chorra chega a disser horrores do tipo, só dou gasto pra vocês, porquê eu tinha que nascer assim, nesta hora dói na alma. E sem contar as pessoas que não conseguem entender a situação e acha que é frescura!
    Hoje já fazem mais de um ano que estamos fazendo o regime e todo esse tempo Heloise esta super bem , foi motivo de comemoração do doutor que nunca escutou ao examinar ela um pulmão tão limpo das infecções. Ao mesmo tempo da tristeza existe alegria!
    Bjs e abraços e muito obrigada por me permitir dividir com todos a minha história de vida. Patricia

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  • 8 de abril de 2019 at 10:06
    Maria da Guia

    Olá, meu nome é Maria da Guia. Tenho 49 anos. Durante minha vida toda, tive alguns episódios de diarreia/constipação, raramente com vômito. Há alguns anos, mais ou menos antes de engravidar do meu filho, tive uma crise muito forte, cheguei a pesar 44kg. Tenho 1,60m, sou do tipo mignon, mas me senti muito magra. O diagnóstico na época foi de ameba e giárdias. Tratei e fiquei bem. No entanto, qualquer coisa que comia “a mais” me deixava com sensação de estômago parado. Como não sou dada a excessos, nunca me importei com isso, pois acontecia de vez em quando. No final do ano passado, me submeti a uma cirurgia e, depois, não me preocupei com quantidade de comida ingerida. Estava em casa, comi de tudo, nas horas certas, mas estava indo ao banheiro umas 3, 4 vezes ao dia. Não engordei durante o tempo de convalescença, o que era de se esperar. Quando voltei a trabalhar, novamente, voltei com os sintomas de diarreia, enjoos, dores estomacais e intestinais. Como ia e voltava, só procurei o médico há mais ou menos um mês. Primeiramente, o médico me passou novamente remédio para vermes. Depois dos exames, fui diagnosticada com sensibilidade a vários alimentos: milho, aveia, trigo, tomate, laticínios, e o médico ainda pediu para eu evitar condimentos e frutas ácidas, diminuir ingestão de carnes vermelhas e também de carne de porco, e café. Como sou muito disciplinada, estou levando a dieta à risca. Faço minha comida em casa. Sinto que a dieta está muito restritiva. O mais difícil, para mim, é a reação das pessoas, inclusive dentro de casa. Mas eu tenho certeza de que vou conseguir. Brevemente, escreverei para vocês que já estou comendo um pão de queijo com café. Abraços. Paz para todos.

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  • 19 de março de 2019 at 16:49
    Rejane Maria Teixeira dos Santos

    Sou Rejane, mãe do Gabriel, descobri que meu filho tinha alergia a proteína do leite de vaca quando ele tinha dois anos e meio. Confesso que meu mundo desabou, nunca tinha ouvido falar, chorei…chorei…chorei…..sabia que o que estava por vir seria uma batalha difícil e foi mais difícil quando descobri que o mundo e as pessoas não estão preparadas para os diferentes. Foram oito meses reclusas em casa, só ia para a casa das avós. Adaptação, cozinhar em casa, matar a vontade do meu filho fazendo tudo em casa, aprendi a fazer coisas que nem eu sabia que seria capaz e fiz. Na escola…………outra parte difícil, coleguinhas comendo de tudo na frente dele e ele olhava…………olhava para o dele e acho que não entendia porque parecia diferente. Eu sempre tentei fazer tudo para que ele comece igual aos outros……….Hoje com quatro anos ele entende que não pode comer nada que outras pessoas lhe oferecem, ele diz: Não posso, obrigada! O olhar dele é diferente…… eu sempre digo a ele que estamos travando uma batalha e que eu estou com ele pra tudo, digo que nós iremos vencer e sair desta fase mais fortes.
    Sabe, tudo isso ,me fez olhar para o jeito como nos alimentamos….. e perceber que dá pra se comer muito bem. Mas para chegar até aqui foi preciso vencer a fase do LUTO consigo mesmo. Hoje nós já frequentamos festas (sempre com a alimentação dele junto) e saímos para nos divertir. É preciso coragem, amor, determinação e muita conversa.
    #incluirechique

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  • 25 de janeiro de 2019 at 22:25
    Daiana

    Nossa achei que ninguém entenderia … passei 6 meses excluindo tudo pelo meu filho isso me trouxe uma crise enorme de ansiedade e ainda estou tentando melhorar.. voltei as festas comendo noque posso pra não perder grandes amigos e momentos bons que me ajudam a enfrentar dias ruins já são 2.4 meses de tratamento da palavra do meu pqno . Percebi que não conseguia fazer o teste de tolerância nos meus pacientes por causa do meu filho me dava angústia saber que alguém poderia passar muito mal . Estou vencendo isso mas às vezes e incompreensível pra muitas pessoas 🙁

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  • 11 de janeiro de 2019 at 14:43
    Juliana

    Não…nao é nada fácil,muito menos algo simples de se adaptar…
    Eu tenho DII…entao obviamente as intolerâncias fazem parte do meu dia a dia…me tornei intolerante até ao açúcar*quase todo tipo de açúcar incluindo carboidratos ….ate aí ok…eu sempre passei mal todas as vezes em que sai da linha…e esse passar mal era mal mesmo…alias ainda é…incluindo dor e sangramento…bom mas ano passado fiquei grávida do meu terceiro filho…um lindo presente que chegou em outubro,um presente que veio logo depois de uma fase muito complicada…havia emagrecido 23 kg ‘sem explicação ‘…varias colonoscopias etc…ai aos 20 dias de vida o Enrico teve uma infecção de pele muito grave…chamada SÍNDROME DA PELE ESCALDADA,um verdadeiro pesadelo que quase levou ele embora…a pele do corpo inteiro dele saiu e ficou tudo na carne viva…
    Bom…superado isso depois de muito tempo internado…periodo no qual se levantou a hipótese de ele ter APLV-e que provavelmente a infecção tenha sido secundária a essa alergia…a alimentação dele é exclusivamente leite materno…porem como eu desconsiderava minha dieta de exclusão na época em que ele nasceu,meu cardápio estava recheado de leite e derivados.
    Obviamente quando foi levantada essa hipótese retirei definitivamente do meu cardápio tudo que havia leite,derivados e traços…mas os outros membros da familia não…e isso é a parte difícil da história…claro que pra mim a saúde e a vida do Enrico vem em primeiro lugar…mas confesso que o desafio é grande…pq os traços ficam por toda a parte…eu fico muito nervosa…e penso que não vou ser capaz de protege lo….me sinto muito culpada também por tudo…exiatem muitos outros sentimentos envolvidos…mas vou abreviar…obrigada pelo espaço!!!

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  • 10 de janeiro de 2019 at 19:23
    Davi Revoredo

    Há alguns meses descobri minha intolerância à lactose, que na verdade já existia na minha infância, mas ela foi sumindo aos poucos até desaparecer. Agora, muitos anos depois ela voltou com tudo e de outra forma: a enxaqueca. Eu tinha enxaquecas diárias o que estava atrapalhando muito minha vida e eu não sabia a causa delas, um belo dia conversando com uma tia minha ela me falou da possibilidade de ser intolerância à lactose, pois ela já tinha acompanhado um caso parecido de perto. Então resolvi fazer o teste, passei uma semana sem tomar nada que tivesse leite e minhas enxaquecas sumiram em 90%. E agora estou num dilema muito grande, cortei radicalmente o leite da minha vida e estou sofrendo com isso porque mesmo quando eu como algo que contém leite, por menor que seja, acabo tendo outra crise de enxaqueca no dia seguinte.

    E agora estou sofrendo emocionalmente com isso, pois já deixei de frequentar festas de família por simplesmente não saber lidar com um banquete que eu não posso usufruir. Já deixei de sair com amigos meus por eles irem a lugares que tem muitos alimentos com leite, isso está afetando muito minha vida pessoal e eu não aguento mais! Já estou sentindo que posso desenvolver uma ansiedade com isso, preciso de ajuda urgente.

    Leite era um dos meu alimentos preferidos, ele nunca faltava na minha geladeira, seja em forma de queijo, iogurte, manteiga ou massas. Faz muito tempo que já não como nada disso. Tentei substitutos, mas eles não chegam nem perto de terem o gosto do leite que eu tanto amava. Atualmente eu sonho com leite, fico lembrando do gosto dele na boca, fico lembrando de como era bom comer queijos de diversos tipos. Agora tudo isso ainda está acessível a mim, mas ao preço de ter outra crise de enxaqueca forte no dia seguinte (outra coisa que também me faz muito mal psicologicamente). Não sei o que fazer, preciso de ajuda.

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    • 10 de fevereiro de 2019 at 21:54
      Sol

      Tive que cortar o leite e derivados da minha alimentação, e fiquei( e ainda fico) oscilando entre sentimentos de tristeza e raiva. Tbm evito reuniões com alimentos q sei q não poderei comer, é cansativo ficar reiteradas vezes falando q não posso comer, infelizmente muita gente acha que é frescura ou q estou de “dieta”, isso mesmo qdo explico.
      Já ouvi piadas, comentários graciosidade, e tudo isso arrasa comigo.
      Nunca imaginei o qto minha vida seria afetada por conta de uma restrição alimentar.
      Vc diz q sonha com leite, eu imagino s um dia vou conseguir tomar um café com leite acompanhado de um pão com queijo.
      Invariavelmente isso afeta meu humor e meus relacionamentos

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