O erro da revista Superinteressante na matéria sobre lactose

Depois da matéria na revista Superinteressante sobre lactose, muitos de vocês me mandaram mensagens, principalmente no Instagram, para saber a minha opinião. Para quem ainda não leu, aqui você pode conferir.

Hoje vou falar sobre o erro da revista na matéria de capa.

Fiz esse post na Fanpage e alguns Stories no Instagram comentando o assunto, mas vou me aprofundar aqui, porque vi que muitas dúvidas surgiram.

Eu dei entrevista à jornalista Pâmela em novembro de 2017. Ficamos bastante tempo conversando, falei sobre minha história, sobre o blog, comentei como é difícil achar informação de boa qualidade via mídia e parte da comunidade médica, comentei sobre tantos e-mails, mensagens e comentários que recebo diariamente relatando dificuldade em entender o que pode e o que não pode, o que de fato é verdade, o que de fato se pode comer, enfim.

Achei bem interessante a pesquisa histórica e adaptação genética da nossa espécie para consumir leite de outros animais, mas a parte em que o leite em si é abordado ficou confusa e mal explicada.

A matéria se propôs a falar sobre intolerância à lactose, no entanto, trouxe uma visão romântica do leite e focou em seus benefícios, que não se aplicam aos intolerantes. Para quê focar no benefício de um alimento quando você vai falar com pessoas que não conseguem digeri-lo?! 😳

Farei alguns posts sobre o tema, mas começo nesse pelo que mais me incomodou na matéria: afirmar que “pesquisas comprovam que a grande maioria dos intolerantes pode consumir até 12 gramas de lactose sem consequências graves, o equivalente a um copo de leite ou pouco mais de dois potes de iogurte”.

São 5 anos e meio que trabalho diretamente com pessoas intolerantes à lactose, sou intolerante à lactose, e só consegui pensar: “Quais são essas pesquisas, quem são esses intolerantes e o que são consequências graves para essas pessoas?!”.

Curiosa para saber, entrei em contato com a jornalista perguntando se ela podia dividir comigo quais foram as fontes dos dados. Ela foi muito solícita e respondeu meu e-mail com os links e trechos que utilizou.

Lá fui eu ler todas e ver quem escreveu e sobre o que estavam falando.

Os artigos são todos em inglês e eu vou colar aqui alguns trechos e comentar em português com a ideia principal, ok?

A grande questão foi que a revista baseou a afirmação de que a grande maioria dos intolerantes pode consumir até 12g de lactose, sem consequências graves, em fontes que estavam falando de má absorção de lactose, que, como afirma artigo publicado no Pubmed: “É importante perceber que a má absorção da lactose (não persistência da lactase) não é equivalente ou sinônimo de intolerância à lactose.

No artigo The Interrelationships between Lactose Intolerance and the Modern Dairy Industry: Global Perspectives in Evolutional and Historical Backgrounds o trecho que fala dos 12g de lactose é esse:

NIH experts suggest that adults and adolescents with lactose mal-absorption could eat or drink at least 12 g of lactose (the amount of lactose in 1 cup of milk) without symptoms or with only minor symptoms. 

Em resumo, o artigo afirma que a NIH (National Institutes of Health) sugere que adultos e adolescentes com má absorção de lactose poderiam comer ou beber pelo menos 12g de lactose sem sintomas ou com sintomas pequenos. O próprio artigo utilizado é confuso e não diferencia claramente má absorção de intolerância à lactose, mas diversas outras fontes, inclusive utilizadas pela revista, fazem a diferenciação.

Outra fonte utilizada foi o parágrafo abaixo, extraído de Milk and dairy products in human nutrition, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, e, novamente, erraram ao analisar o texto da pesquisa. A Superinteressante entendeu, também aqui, má absorção de lactose como intolerância à lactose.

Although symptoms of lactose intolerance have been described after intake of less than 6 g of lactose in some subjects, the Panel concluded that the vast majority of subjects with lactose maldigestion will tolerate up to 12 g of lactose as a single dose (particularly if taken with food) with minor or no symptoms. Higher daily doses of up to 24g may be tolerated if distributed throughout the day (EFSA, 2010).

Tradução: Embora os sintomas de intolerância à lactose tenham sido descritos após ingestão de menos de 6 g de lactose em alguns indivíduos, o Painel concluiu que a grande maioria dos indivíduos com má digestão de lactose tolerará até 12 g de lactose como uma dose única (especialmente se for tomada com alimentos) com menor ou nenhum sintoma. Podem ser toleradas doses diárias mais elevadas de até 24 g se forem distribuídas ao longo do dia.

Esse mesmo material, duas páginas antes desse trecho, deixa clara a diferença entre lactose malabsortion/maldigestion (má absorção/digestão de lactose) e intolerância à lactose. Vejam abaixo:

Thus,  low lactase  levels  cause  lactose  malabsorption  (or  lactose  maldigestion).  When  lactose malabsorption gives rise to symptoms, this is called “lactose intolerance”, i.e. lactose malabsorption is the physiologic problem that manifests as lactose intolerance. The definitions  used  by  the  American  Academy  of  Pediatrics Committee  on  Nutrition  (Heyman,  2006)  are  given  in  Box  4.1.  Lactose  maldigestion  does  not  lead  to  symptoms of lactose intolerance in all LNP subjects, and a small percentage of LNP subjects  remain  free  of  symptoms  even  after  ingestion  of  large  amounts  of  lactose  (Scrimshaw and Murray, 1988).

Tradução:

Assim, baixos níveis de lactase causam má absorção de lactose (ou má digestão de lactose). Quando a má absorção de lactose dá origem a sintomas, isso é chamado de “intolerância à lactose”, ou seja, a má absorção de lactose é o problema fisiológico que se manifesta como intolerância à lactose. (…) A má digestão de lactose não leva a sintomas de intolerância à lactose em todos os indivíduos com LNP (falta de lactase), e uma pequena porcentagem de indivíduos com LNP permanece livre de sintomas mesmo após a ingestão de grandes quantidades de lactose (Scrimshaw e Murray, 1988). 

A revista Superinteressante afirmou que a grande maioria dos intolerantes à lactose pode consumir 12g de lactose sem sentir sintomas, mas se baseou em artigos que falam que indivíduos com má absorção de lactose podem consumir 12g de lactose sem apresentar sintomas. 

Vou colar aqui novamente o trecho tirado da Superinteressante para revermos:

pesquisas comprovam que a grande maioria dos intolerantes pode consumir até 12 gramas de lactose sem consequências graves, o equivalente a um copo de leite ou pouco mais de dois potes de iogurte”

Pelo o que pude verificar, as fontes enviadas pela jornalista:

  1. Não afirmam que foi comprovado pelas pesquisas, mas apenas sugerido.
  2. Não estão se referindo a intolerantes à lactose e sim a pessoas com má absorção de lactose.

Além dessas duas fontes, utilizaram ainda essas abaixo:

– Dairy Australia

Dairy Australia é a indústria láctea australiana, que como o próprio site diz, é uma indústria de 13 bilhões de dólares que emprega 43000 australianos e alimenta milhares todos os dias. Quase nada tendencioso 🙄.

Eles também estão falando sobre má digestão de lactose, não intolerância:

Research has shown that the majority of people with low lactase enzyme levels can consume at least one cup of milk (about 12 grams of lactose) a day. Research has also shown that if people with lactose maldigestion drink milk with different meals over the day, up to 2 cups of milk a day can be drunk without experiencing symptoms of lactose intolerance.

– A importância do consumo de leite no atual cenário nutricional brasileiro, da Sociedade Brasileira de Nutrição

Para indivíduos com hipolactasia (inclusive a hipolactasia do adulto), indica-se a redução e não a exclusão de alimentos que contenham lactose (Rusynyk e Still, 2001), uma vez que grande parte desses indivíduos chega a tolerar 11 g a 12 g de lactose/dia, sem apresentar sintomas adversos (Mattar e Mazo, 2010; Shaukat et al., 2010).

Hipolactasia também não é sinônimo de intolerância à lactose. Segundo artigo publicado no Pubmed, é simplesmente uma deficiência de enzima, que leva à má absorção ou intolerância à lactose.

Resumindo, se a intenção da Superinteressante era fazer uma matéria sobre intolerância à lactose, deveriam ter tido maior cuidado na análise dos dados de artigos científicos.

Quem tem o objetivo de informar deve trazer informações mais claras e realmente precisas.

Para finalizar, mais um trecho que mostra a falta de cuidado da revista com a questão da intolerância alimentar:

“Assim como já aconteceu com o glúten, o ovo e a gordura animal, a lactose é o novo vilão da alimentação, e está perdendo lugar nas prateleiras dos supermercados.”

A lactose é um antigo vilão, assim como o glúten e o ovo também são e continuarão sendo, para quem não consegue digeri-los. Chega de tratar intolerâncias e alergias alimentares como se fosse moda. O assunto é sério, merece respeito.

Nos próximos posts falarei sobre outros dois aspectos da reportagem que causaram confusão nos intolerantes: cálcio e os nutrientes do leite. Fiquem ligados!

Não esqueçam de compartilhar esse artigo! Chega de mais dúvida e confusão!

Um beijo, amigos!

Sobre o Autor

Flavia Machioni

Flavia Machioni

Eu sou a Flavia, autora do Lactose Não. Sou especialista em cozinha natural, Health Coach formada pelo IIN/NY e Relações Públicas de formação. Faz 6 anos que venho mudando meu estilo de vida para ter mais saúde e bem estar e divido grande parte desse caminho aqui e em minhas redes sociais. Desenvolvi um método de 6 semanas para auxiliar quem também está nessa busca. O Com amor, sem restrições 💕, de agosto pra cá, ajudou mais de 140 pessoas a se sentirem bem, com saúde, vitalidade e leveza. Confira aqui no site e participe da próxima turma!

3 comentários em “O erro da revista Superinteressante na matéria sobre lactose

  • 21 de fevereiro de 2018 at 18:39
    Jana

    Parabéns Flavia pela excelente, Franca, verdadeira e imparcial matéria, é lamentável uma revista tão respeitável como a superinteressante se rebaixar a esse nível de desinformação , desinteresse pelo publico alvo e tendenciosidade… As indústrias deveriam preocupar-se em divulgar os produtos sem lactose ou fornecer enzimas a um custo menor em vez de prejudicar pessoas que já estão com sua saúde precária…

    Reply
  • 1 de março de 2018 at 17:24
    Ely Aparecida

    Ola, gostaria de saber como vc substitui o cálcio do leite?

    Reply
  • 4 de abril de 2018 at 21:44
    DINALVA FAULIN

    Muito bem colocado Flavia!
    existem ainda pessoas alérgicas que é um problema muito sério.
    Meu filho é alérgico e ele quase morreu por ter ingerido uma gota de leite.
    Sem qualquer exagero, quando ele tinha seis meses, graças a Deus, ele apenas ingeriu algumas gotas,
    o que foi suficiente para inchar seu rosto e pescoço.
    A mídia ao tratar desse assunto precisa ter muita responsabilidade, pois tem pessoas que confiam naquilo
    que leem e isso pode ter consequências muio sérias!
    Sim há pessoas que acham que era frescura minha ficar perguntando se o produto continha leite ou derivados.
    Mesmo quando eu explicava o problema do meu filho, por preguiça de perguntar para o responsável mentiam
    que não continha leite.
    Obrigada por tratar do assunto com a seriedade que ele merece!

    Reply

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