O intolerante e suas fases

Não sou mais uma intolerante novata, já vivi muitas fases e acompanhei as aventuras de outras tantas pessoas que precisam excluir algum tipo de alimento. Depois de ver a história se repetir muitas vezes, percebi que a grande maioria percorre uma trajetória semelhante. Escrevi do ponto de vista de quem precisou excluir a lactose, mas acho que quem têm outras restrições também vai se identificar com o intolerante e suas fases. Leiam e depois nos contem se para vocês também foi, ou é, assim:

Impacto x alívio

O momento em que a gente recebe o diagnóstico é um caos sentimental. Finalmente descobrimos o que nos faz mal e vamos poder tratar, mas a ideia de nunca mais tomar sorvete, comer pudim ou queijo gratinado deixa nosso coração em pedacinhos.

Olá mundo cruel

Depois de passar um tempo chorando em posição fetal, é hora de juntar os caquinhos e tomar medidas práticas. Ler todos os rótulos do supermercado torna-se o seu hobby, e assim fica sabendo que o leite está presente em coisas nunca imaginadas. Quando você começa a lidar bem com a ideia de abrir mão de leite condensado, descobre que até biscoito de polvilho leva leite! E nos restaurantes, pensa: por que precisam adicionar laticínios em tudo?! E lidar com os palpites de pessoas não tão bem informadas é um desafio à parte.

Ah, os comentários

Meus problemas acabaram (SQN)

A etapa seguinte no processo de adaptação é se deparar com um mundo paralelo: o dos produtos especialmente feitos para quem têm restrição alimentar. Parece perfeito: você vai poder voltar a comer iogurtes, chocolates, biscoitos… as opções são infinitas. Mas infelizmente você logo se dá conta que não é bem assim.  Muitos desses produtos são bem vindos em momentos de necessidade (oi TPM), mas outros acabam não dando certo porque: 1) não são saborosos; 2) custam os olhos da cara e são difíceis de encontrar; 3) No caso dos zero lactose, podem ainda assim causar alguma reação. (B)ônus:  muitos são feitos com ingredientes refinados e artificiais, o que você já começa a evitar.

Ops, foi mal…

Após todo esse esforço para adequar a alimentação, você fica feliz porque a saúde começa a melhorar, e novos prazeres ocupam o lugar daqueles que você precisou abrir mão. Tudo vai bem, até que surge um evento com um buffet maravilhoso, com muuuuita lactose! Duas coisas podem acontecer: 1) você não resiste e decide “provar só um docinho, estou tão bem, vou me controlar”, ou 2) seguindo o fluxo das outras pessoas, acaba comendo um croquete, e, no momento que sente o gosto de catupiry, pensa “p#*%@, que que eu tô fazendo!”. O resultado disso todos nós sabemos.

Restrição não, opção

A última etapa, depois de um período de autoconhecimento, é a chegada a um novo equilíbrio. Em geral, vejo que as pessoas percebem que se alimentar da forma mais natural e simples possível é a melhor opção, tendo ou não restrições. As preparações mais elaboradas ficam para ocasiões especiais, e cada vez menos pacotinhos são abertos no dia a dia. A disposição melhora e a saúde se fortalece, indicando que a direção está certa. Alguns deslizes acontecem, mas você os faz sabendo o preço que irá pagar. A palavra “opção” passa a fazer mais sentindo que a palavra “restrição”.

Sei que muitas outras fases existem, mas se eu fosse falar de todas o texto nunca teria fim. Tem os médicos despreparados para dar orientações, as tentativas de utilizar a enzima lactase, a mudança de comportamento em programas que envolvem refeições, enfim, muita coisa.

Aproveite o espaço dos comentários para contribuir com essa lista 🙂

Sobre o Autor

Carla Vailatti

Carla Vailatti

Oi, eu sou a Carla Vailatti, jornalista e intolerante à lactose. Procuro seguir o que meu corpo e coração pedem: me nutrir de forma natural, me movimentar e enfrentar com leveza os desafios cotidianos.

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8 comentários em “O intolerante e suas fases

  • 15 de março de 2017 at 10:00
    Rafaela

    Olá! Me identifiquei muito com todas as fases. Acho que já estou na última, porém com um problema. Toda vez que abro uma exceção e resolvo tomar a enzima (quase todo final de semana) acabo abusando do açúcar, ingredientes refinados, etc… E aí, normalmente, retorno a rotina saudável somente na segunda-feira. 🙁 Acredito que a intolerância à lactose desencadeou essa compulsão em mim. E não tá fácil para mudar esse comportamento. Mas continuo em busca de mais consciência na alimentação.

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    • 15 de março de 2017 at 17:00

      Rafaela, também me identifiquei com o que você falou. Nunca fui muito chegada em sobremesas, mas parece que não poder acaba despertando uma vontade, enfim, é complicado. Fico chateada com essas fraquezas, mas olhando pra trás, vejo que minha alimentação está muito melhor, mesmo com essas furadas. Às vezes damos passos para frente, às vezes para trás, mas seguimos em busca. Ter clareza sobre os motivos que me levaram a fazer determinadas escolhas é algo que me ajuda em dificuldades. Obrigada pelo seu comentário, volte sempre 😉

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  • 19 de março de 2017 at 12:29
    Priscila Cardoso

    Adorei o texto! Queria que ele tivesse essas outras fases só citadas!
    Já tem quase 2 anos desde que fui diagnosticada, mas como fiz vários experimentos, um tempo sem nada de lácteos, um tempo experimentando se havia limites aceitáveis (o por um tempo, até que sim!), um tempo de jaca total (vou encarar as consequências e comer feliz) e agora uma fase de “sofrencia”, pq meu organismo está tolerância zero para lácteos, não me sinto bem com as enzimas!
    Entretanto, já estou com mais consciência da restrição, entendendo melhor sobre alimentos e vendo tudo isso como uma opção de vida saudável!
    Quero agradecer a autora, Carla Vailatti, pelo texto!
    E tb a autora do blog, Flavia Machiori, por partilhar experiências e conhecimentos! Nesse caminho me ajudou seu testemunho pessoal! Te admiro! Um dia quero aprender a fazer o leite condensado de coco! se vier em Campinas, não perco!

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  • 23 de março de 2017 at 21:19
    Najara Guedes

    Oiiiiii, super me identifiquei com todas as fases. Já descobri minha IL a 8 anos. No começo foi muita posição fetal pra conseguir lidar com todas as restrições. Aí veio a fase da tentativa do uso das enzima. Que não deu nada certo. Aí veio a descoberta de que o contraceptivo (pílulas) que tomava (e todos os outros que já tive acesso) tinha lactose. E entre todo esse meio tempo as frases de “apoio” sempre foram muitas e as mais variadas. A minha preferida é: ” Isso é psicológico”, “só um pouquinho, não vai fazer mal”… Enfim, hj graças a todos esses percausos e restrições, eu tenho uma alimentação bem melhor, mas ainda me rendo as ciladas dos leites condensados e doces de leite sem lactose (às vezes é bem legal, outras não). Amo o lactose não, que foi uma das primeiras páginas que descobri que falavam desses questões e que tinham receitas deli para a pessoa poder voltar a ser feliz. Um bjão procês, suas lindas 😘😘😘

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    • 23 de março de 2017 at 22:01
      carla

      Que novela, né 🙊! Depois que passa, a gente até acha graça.

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  • 23 de março de 2017 at 21:30
    Ana Carolina Rizzi

    Otimo o texto! Descreveu com precisão todas as fases que passei durante esses 15 anos… na época ainda não existiam tanto produtos bons no mercado! E eu ainda me afundava na panela de brigadeiro em raras ocasiões pensando, “agora f….já comi uma colher, que se dane, vou comer tudo mesmo!”.Até hj lembro da minha alegria quando lançaram os primeiros iogurtes sem lactose…durou pouco mas aproveitei. Hj em dia não posso mais nada que contenha uma gota de leite!! Morte na certa!
    Atualmente me sinto assim como vc falou tambem, mais disposta e com energia e feliz comigo mesma pelas opções mais saudáveis. Nao sinto falta de leite na minha vida. A nao ser quando tem alguma ocasiao tipo festa de casamento, que não tem nada pra gente… ai me revolto um pouco. Pq afinal, nao é necessario por leite em tudo pra fica bom!!!
    Enfim, quis compartilhar isso com vc, pq acompanho seu blog desde o início, quando pouco se falava disso, e admiro muito seu trabalho e o de outras culinaristas saudáveis que ajudam esse mercado a ver a gente! Afinal é algo que deve ser muito explorado e que crescer aqui no Brasil, por varias razoes ( ecológico, sustentavel, questao de saude da população como um todo, etc)
    Gratidão pelas suas receitas deliciosas!!
    Um beijo

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  • 23 de março de 2017 at 21:31
    Taíssa

    Me identifiquei muito com o texto. Eu descobri a intolerancia tem uns 4/5 anos na época foi horrivel e era/ é horrivel encontrar alimentos sem lactose, fora seus amigos e familiares falando que é frescura ou palhaçada. Hoje como muito melhor e muito mais saudável e quando quero muito algo com lactose tomo lactosil em comprimido que se eu nao abusar resolve.

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  • 24 de março de 2017 at 8:39
    Juliana

    Olá! Descobri minha intolerância a pouco mais de 1 ano, ainda estou aprendendo a lidar, tô na fase da enzima, e as vezes você esquece e acha que consegue comer um bolinho de queijo, quando vai ver já tá no terceiro e com burburinhos na barriga. Adaptei muita coisa já, mas o que mais me faz falta é o chocolate, pela manhã tomo leite zero lactose com cacau, isso me adaptei bem, mas é difícil quando sua família adora massas, comidas deliciosas, e ai fala pra você: “toma lá o remedinho”, só que a enzima dependendo da comida nem sempre da certo. Eu percebo que quando como bolos veganos, comidas veganas, nossa fico leve, mas ainda necessito de carne, então não dá pra virar vegana. E percebi que também virei mais formiguinha e quando a Flávia posta doces e receitas morro de vontade de comer, antes quando ela mostrava no Snapchat, era até triste de ver hahaha, ainda mais que sou péssima de cozinha. Obrigada pelo blog que é tão especial e nos ajuda a melhorar cada dia mais!

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